É uma casa de fundos no subúrbio da Piedade. O acesso se dá através de um longo e estreito corredor. Tão estreito que, em sua entrada, só há espaço para um pequeno portão preso a uma coluna de igual altura, onde, toda tarde, uma senhora de aproximadamente 90 anos fica a chamar, com sinais feitos com uma das mãos, os passageiros dos ônibus suburbanos que, àquela hora, retornam aos seus lares, depois de um longo dia de trabalho.
A que nos chama? Talvez queira que entremos em sua vida.
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Venham meus filhos, esta é a casa onde moro. Uma pequena e velha casa que divido com o
cheiro de mofo. Tive que aprender a
conviver com ele, sabe? Hoje o mofo é
que é o meu marido, porque o meu Antônio ... ele me deixou há cinco anos.
Uma das minhas filhas mora na casa da
frente. Essas casas foram construídas
pelo Antônio. O meu Antônio foi
funcionário público importante, sabe?
Ele era assessor direto do Getúlio.
Gostava muito dele. Tava lá no
dia do tiro. Foi um dos primeiros a ver
o velho morto. Chorou muito, o meu
Antônio. Passou semanas sem dormir
direito.
Minha outra filha casou-se com um
juiz. Mora em Brasília e nunca vem ao
Rio. Prefere ir “pros estrangeiro”. É uma boba.
Mas elas não me dão muita
atenção. A Lúcia, a que mora aqui na
frente, me dá comida todo dia mas briga muito comigo. O marido dela não. Ah, é um santo homem, o Olavo.
Só que trabalha muito, mas sempre que pode ele vem aqui pra limpar a
casa pra mim, pra espantar o mofo. Tão
bonzinho ele. Faz eu me lembrar do meu
Antônio.
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Olhem meus filhos, eu moro aqui. A casa é velha mas é limpinha. Minha neta, a Ana Luiza, que mora na casa da
frente com o marido, cuida da casa ... cuida de mim. Ela é um amor. O marido dela não gosta, diz que ela deixa de
cuidar da casa, da vida deles, prá cuidar de mim. É um mal agradecido. Esqueceu que foi o meu Antônio, o meu marido,
que deu essa casa pra eles. Antes a gente
morava na casa da frente e alugava a de trás.
Mas quando a Ana casou, o meu Antônio deu a ela de presente e passamos a
morar nos fundos. Dessa vida não se leva
nada mesmo, meus filhos. Só se deixa ...
se deixa saudade. Sinto saudade do meu Antônio.
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Desçam desse ônibus meus filhos. Vocês estão mais amassados do que cueca na
gaveta. O que vocês fazem aí? Será que gostam de sofrer? Tanto sofrimento só vale se o trabalho for
recompensador. Por acaso o é? Se não, eu não consigo entender. Venham, entrem, tomemos um chazinho de
canela.
Sabe, eu tenho noventa anos, fui casada por sessenta
com o meu Antônio. Nós nunca fomos ricos,
sabe? Mas fomos felizes. E sabe por quê? Porque, além de nos amarmos muito, buscamos
fazer o que gostávamos. Nem sempre foi
assim, é verdade. Mas um dia nós
atendemos um chamado que vinha do lado de fora da condução lotada. Nos libertamos da gaiola e fomos ver onde
morava aquela velha senhora ... uma velha senhora chamada vida.
Tá
gostoso o chazinho?
(Cláudio Beserra é passageiro de ônibus
suburbanos)

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